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5 de Março de 2021

Afinal, é importante fazer estágio durante a graduação?

Victor Emídio, Estudante de Direito
Publicado por Victor Emídio
há 2 meses

Ao longo da faculdade de Direito, inúmeras dúvidas tomam conta da cabeça dos estudantes. Dentre elas, destacarei neste texto aquela ligada à importância da realização de estágios.

Em várias cidades, conseguir um estágio no Direito não é uma tarefa fácil.

Particularmente, ao longo da minha formação, não tive grandes problemas para conseguir estágios, o que me permitiu tirar grandes conclusões disso.

Algumas, inclusive, vão na contramão de certos conselhos que vejo por aí.

Quando digo na contramão, estou me referindo ao fato de ser bastante comum nas redes sociais que indivíduos que se colocam como especialistas no ramo dos concursos públicos, ao serem indagados por pretensos concurseiros sobre o estágio na graduação, responderem o seguinte:

"concurseiro deve começar a estudar o quanto antes, inclusive abrindo mão de estágios, ficando apenas por conta dos estudos, deixando a prática para depois da eventual aprovação”.

Não concordo com isso. Antes de dizer o porquê, contarei um pouquinho da minha trajetória no que se refere aos estágios.

A primeira experiência - frio na barriga!

Minha primeira experiência de estágio ocorreu logo na segunda semana de faculdade, quando eu estava no primeiro semestre.

Um dos meus professores (um dos mais queridos que tive até agora) é Juiz de Direito no Juizado Especial aqui da minha cidade (Barbacena/MG).

Logo na primeira aula, ele falou sobre como é importante ter contato com a prática o quanto antes.

Em seguida, ele mencionou que no Juizado Especial, em razão da grande demanda de trabalho, sempre são necessários conciliadores para atuarem de forma voluntária.

Na mesma semana, fui ao Juizado e fiz a minha inscrição para o estágio voluntário. Na segunda-feira da semana seguinte, chamaram-me. Na terça-feira, iniciei.

Confesso que o frio na barriga foi enorme, pensei várias vezes em inventar uma desculpa e desistir. Afinal, volto a dizer, eu estava na minha segunda semana de aulas!

Eu não sabia absolutamente nada sobre o curso de Direito; muito menos sobre o funcionado do Juizado Especial; menos ainda sobre o processo civil. Ainda assim, encarei o desafio de frente e, confesso, ainda bem que não desisti, pois foi uma experiência fantástica.

Ser conciliador exige muito mais sensibilidade e empatia do que conhecimentos jurídicos.

As questões práticas, em poucas semanas, já não eram um problema. Como conciliador, tive contato com assuntos e termos jurídicos que somente seriam ensinados na metade ou mesmo na reta final do meu curso.

A segunda experiência – um enorme aprendizado!

Fiquei no Juizado Especial por quase um ano e meio.

Assim que concluí o terceiro período da graduação, recebi a notícia de que o TJMG havia aberto um processo de seleção de estágio remunerado na minha cidade para estudantes do quarto ao oitavo período de Direito.

Sem pensar duas vezes, fui até o fórum e me inscrevi.

Logo que li o edital, percebi que a tarefa de ser aprovado não seria nada fácil.

Isso porque, como dito acima, eu mal havia terminado o terceiro período.

Por consequência, além de concorrer com estudantes que cursavam períodos à frente do meu, eu ainda não havia estudado mais da metade do conteúdo programático previsto para o certame.

Mesmo assim, mantive o pensamento confiante.

Claro que só a confiança não basta. Foi necessário, também, muito estudo.

Abdiquei das minhas férias de meio de ano e estudei praticamente o dia todo, durante um mês. Lia bastante a legislação, via aulas em vídeo e, mais importante, resolvia dezenas de questões por dia.

O resultado? Aprovação em primeiro lugar!

Fui chamado para estagiar na 1ª Vara Cível da Comarca de Barbacena. Por cerca de cinco meses, fiquei na Secretaria do Juízo.

Apesar de os servidores e os estagiários que lá trabalhavam serem pessoas maravilhosas, com as quais até hoje mantenho contato, confesso que não gostei da atividade em si.

Trata-se de um serviço bastante burocrático, repetitivo, e com um volume infinito de trabalho, o que, com o tempo, ao menos para mim, foi ficando bastante desestimulante.

Ainda assim, como tudo na vida, inúmeros foram os pontos positivos, como o atendimento ao público e aos advogados - o que é ótimo para construir boas relações - e, principalmente, a possibilidade de compreender o funcionamento interno da Justiça.

Logo depois, surgiu uma vaga no gabinete. Lá, aprendi bastante sobre o ofício de um juiz.

Tive a oportunidade de redigir despachos, decisões interlocutórias e até mesmo sentenças! Tudo sob a fiscalização do magistrado e da assessora, é claro.

Estagiei cerca de um ano e meio no gabinete da 1ª Vara Cível e aprendi muito no período.

Principalmente porque, por mais que hajam muitas demandas semelhantes, todos os dias eu me deparava com casos cuja solução não vinha escancarada na lei, na doutrina e na jurisprudência.

Isso exigia de mim, na condição de estagiário, a construção de um raciocínio jurídico praticamente do zero.

A terceira experiência – um sonho!

Ao longo da graduação, é normal que os alunos se identifiquem mais com determinada (s) disciplina do que com outras (s). No meu caso, a minha relação com o Direito Penal e o Processo Penal foi de amor à primeira vista.

Por conta disso, ainda que o estágio no gabinete da 1ª Vara Cível estivesse sendo muito proveitoso, no fundo o meu coração pedia, quase implorava, por uma oportunidade de estagiar na área criminal.

A oportunidade veio na metade deste ano de 2020.

Desde então, após novamente ser aprovado em primeiro lugar no exame de seleção, faço estágio em uma Promotoria Criminal na minha cidade (Barbacena/MG).

Tem sido uma experiência fascinante!

O promotor é um ser humano incrível e extremamente dedicado, que dá bastante autonomia aos estagiários.

A atuação na Justiça Criminal é um desafio à parte, pois, com o perdão da palavra, lida-se, essencialmente, com a desgraça e a tragédia humanas; circunstâncias que aumentam, em muito, a responsabilidade de todos os atores do processo penal, sob pena de serem cometidas graves injustiças, seja para a figura da vítima, seja para os investigados, acusados e apenados.

“Concurseiro não deve fazer estágio!” Será mesmo?

Para encerrar, matarei dois coelhos com uma só cajadada, já que a resposta para o presente tópico é a mesma daquele questionamento proposto no início do texto.

Seja para o concurseiro (a), seja para o (a) futuro (a) advogado (a), não há como negar que a construção de uma base teórica forte é extremamente importante na faculdade de Direito, principalmente nos primeiros períodos do curso.

Ainda assim, feita a ressalva daqueles que pretendem se dedicar integralmente à docência, é preciso ter em mente que, no Direito, a teoria e a prática devem caminhar lado a lado!

Inúmeros assuntos abordados nas aulas teóricas, ou mesmo nos livros, podem ser revestidos de um grau tão intenso de abstração que se tornam incompreensíveis para o estudante.

A título de exemplo, a minha relação com a famigerada Lei 8.666/93 (Lei de Licitações) foi péssima! Eu não conseguia enxergar lógica entre os seus dispositivos legais.

Por outro lado, uma colega de turma que faz estágio numa Prefeitura, precisamente em um departamento responsável pela parte de licitações, teve bastante facilidade no estudo da referida lei, uma vez que lidava diariamente com ela.

Da mesma forma, eu não encontrei maiores dificuldades quando estudei, na disciplina de Direito Processual Civil, a parte que trata das execuções em geral e do cumprimento de sentença, uma vez que na 1ª Vara Cível eu lidava diariamente com processos que estavam nesses momentos processuais.

Enfim, além de auxiliar na compreensão da teoria, o estágio, de certa forma, impõe ao estudante um senso maior de realidade.

Isso porque, não raramente, o Direito é ensinado nas faculdades em uma perspectiva bastante romantizada, como se o sistema fosse realmente harmônico e perfeito.

Acontece que, como já escrevi em outra ocasião, na prática, a teoria é outra.

Além do mais, a realização de estágios na graduação é de extrema importância para que o estudante decida quais os rumos profissionais ele tomará após a formatura.

Por conta disso é que não concordo com a frase de que concurseiro não deve fazer estágio, que deve ficar apenas por conta dos estudos.

Tenho colegas que, tomados por profundo sentimento de vaidade, narram, para os quatro ventos e cantos, que farão concurso para a magistratura, sem, sequer, saberem o que um magistrado faz.

Nunca pisaram em um fórum!

As chances de uma frustração profissional são enormes. Digo isso por experiência própria.

Não cometa o mesmo erro que eu...

Como também já escrevi em outra oportunidade (clique aqui para ler), passei boa parte da minha vida acreditando que a minha vocação era a de oficial do Exército Brasileiro.

Dediquei bons anos da minha vida estudando para alcançar este objetivo.

Lado outro, raramente eu parava para pesquisar sobre como é a formação do oficial do Exército Brasileiro, ou sobre como é o exercício profissional após a formatura na AMAN (Academia Militar das Agulhas Negras).

Descobri da pior maneira possível, quando já estava lá.

A frustração e o arrependimento não demoraram a aparecer. Ainda assim, insisti por cerca de um ano e meio, até o dia em que não teve mais jeito.

Eu já não aguentava mais e pedi o meu desligamento.

Admiro as carreiras militares. Mas, definitivamente, nada daquilo é para mim.

A gente nunca deve dizer que tempo dedicado ao estudo é tempo perdido, mas, inevitavelmente, a sensação de ter remado à toa se fez presente na minha vida naquela época.

Decidi correr o risco de sair do Exército e iniciar uma nova vida. Nunca me arrependi.

Apesar de estar no início da minha caminhada no Direito, sinto-me extremamente realizado.

O problema é que nem todo mundo está disposto a abrir mão de uma carreira pública, principalmente diante da estabilidade e demais benesses financeiras que, em geral, referidas carreiras oferecem.

Falo das carreiras públicas porque suponho que seja mais fácil (e mais natural) migrar da advocacia para elas do que o contrário.

Vale à pena viver o resto da vida frustrado profissionalmente, pensando que deveria ter feito diferente?

A resposta é muito pessoal. Para mim, não vale.

Não pretendo, com este texto, que é mais uma conversa do que um texto, incutir na cabeça dos queridos leitores que fazer estágio é a solução de todos os seus problemas.

Não é.

Até porque, nada impede que a pessoa que nunca fez estágio durante a faculdade se realize profissionalmente logo no primeiro caminho que seguir, seja na advocacia ou no seguimento dos concursos.

Mas serve de norte, disso não tenho dúvidas.

Ainda que o seu objetivo seja advogar, mas você não consegue uma oportunidade de estágio na área, não feche os olhos para as oportunidades nas repartições públicas e vice-versa.

Talvez você se descubra profissionalmente, ou talvez passe a ter ainda mais certeza de que nasceu para a advocacia.

Igualmente, aos amigos que, por diversos fatores, não conseguirem estagiar durante a graduação, não há motivo para desespero.

Com a internet, principalmente com as redes sociais, é perfeitamente possível aprender pela experiência dos outros, já que, atualmente, as pessoas postam tudo sobre as suas rotinas pessoais e profissionais.

O que não dá para deixar de lado é a vontade de aprender.

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12 Comentários

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Excelente texto meu amigo @emidiovictor 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼

Cara, que história viu? Às vezes, nossas vidas tomam rumos inimagináveis. Eu sempre senti, pelas publicações, que você tem algo mais especial! Agora, uma pergunta não querer calar: onde o Victor parará? Eu arrisco-me a dizer que não sei, mas tenho certeza que farás a diferença e continuarás nos orgulhando muito como brasileiros 🙏🏼🙏🏼🙏🏼🙏🏼 continuar lendo

Que artigo maravilhoso!

Parabéns e obrigado. continuar lendo

Muito obrigado, amigo! Fico muito feliz que você tenha gostado! Grande abraço! continuar lendo

Parabéns pelo texto, Victor!

Também fui estagiária voluntária no primeiro semestre e é uma ótima experiência, aprendi muito e de todos os meus estágios, o voluntário sempre foi o meu preferido! rs

Acredito também que a experiência do estágio é uma fonte essencial e um norte para os estudantes, permitindo muitas vezes uma melhor visão de como é na prática a advocacia ou carreira pública.

Como sempre, ótimos textos! Parabéns pelas conquistas :). continuar lendo

Muito obrigado pelo seu comentário!! Exatamente! O estágio serve de norte. Para mim, tem sido indispensável.

Fiquei curioso aqui: o seu primeiro estágio foi aonde? continuar lendo

Meu primeiro estágio foi como voluntária no JEF e também na 2ª Vara Federal Previdenciária de Limeira/SP. continuar lendo

Certamente.
o Estágio nos capacita a uma nova jornada, em que estaremos diante de situações concretas. continuar lendo

Exatamente, amigo! Aprender a lidar com situações concretas é fundamental. Além de previnir contra várias inseguranças que podem surgir na vida profissional. continuar lendo